quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Poço

[Passei a te amar oh dificuldade, pois é aqui onde minhas lágrimas mais sinceras caem, mas é aqui também que elas são consoladas. Na dificuldade sou aperfeiçoado, meu coração se entristece com a situação mas se alegra na sabedoria. Deus me conforta com resultado.]

Há águas que só podem ser alcançadas quando eu vou ao fundo do meu eu. Cavo um poço muito fundo. Parece não acabar. Quando acho que achei a corrente de águas, terras desmoronam. Um deslize, um erro. Tenho que tirar toda a terra. Lá em cima quando estava cavando deixei lacunas. Tenho que voltar. Consertar para que outra vez não afaste do objetivo. Estou com sede. Estou cansado. Quero parar. Mas se eu voltar para casa sem água vou morrer. Preciso de um gole. Gotas, apenas algumas gotas. Uso o resto da força que me sobra e agora ao invés de cavar, grito. Grito bem alto: "Alguém ai? Alguém me tira daqui e me dê água."
Ninguém responde. Estou prostrado no fundo do poço. Nao consigo sair.
Alguém vai passando. Um homem de cabelo branco, olhos de fogo, iluminado.
Calmamente desce ao meu encontro. Me afasta um pouco, e começa a me ajudar.
Foi aqui, onde tudo começou. Ele sua bastante, faz um esforço muito maior, suas mãos ficam cheias de calos, suas vestes limpas ficaram sujas. Mas ele me deu água. Nunca o havia visto.
Então agora meu poço estava no lençol.
Mas antes de ir, Ele me disse: cuide para que não caia mais barrancos. Ainda existem muitas falhas. Você precisa todos os dias descer e fechar as lacunas. Todo dia alguém vai querer acabar com esse poço. Sua água é a melhor da região. Todos invejam você. Cuide, cuide diariamente disso."
Ele se foi. E eu fiz o que foi dito... Por um tempo. 

Porém, com o passar dos dias ninguém aparecia, ninguém nem me conhecia. Passei a me questionar se aquele homem tinha falado algo verdadeiro. Reconheci a sua grande ajuda, mas desvalorizei suas palavras. 
Aos poucos fui deixando os barrancos caírem... Eu já havia arrumado uma fonte mais perto para beber água, não havia percebido nenhuma diferença aparente entre a água daquele poço. Era o mesmo gosto, não fazia mal, enfim, tudo normal. 
Mesmo assim eu fazia uso do meu poço pois as águas dos vizinhos não eram suficientes.
Passou se o tempo e meu poço já não tinha tanta reserva, havia muitas falhas.

Veio uma grande peste na região. Todos ficaram doentes, no entanto, eu era o único que não adoecera, ninguém sabia explicar o que acontecia comigo. Eu fazia tudo que eles faziam. Trabalhávamos, comíamos, dormíamos em mesma condição. As pessoas começaram a me conhecer. Em pouco tempo meu nome estava espalhado em toda a região como o "são". 
Por ser interior, as pessoas começaram a relacionar o fato com a religião. Estava eu em patamar de santo. Alguns pediam ajuda, mas eu não fazia ideia do que estava ocorrendo.
Uns me admiravam, outros invejavam. A situação já estava enfadonha. Não havia nada a se fazer, e continuaram a adoecer muitas pessoas... 

La no fundo surgiu em mim algo bem pequeno, uma presunção, de que havia algo mesmo especial comigo. Eu no começo até achei estranho, mas de um desconhecido para uma estrela em pouco tempo, era algo jamais pensado. De fato eu não queria aquilo,  nunca foi meu sonho, nunca quis ser famoso. Mas essa admiração me moveu a presunção.

Estive ciente no entanto que, eu não deveria me por em situação superior. Só que as pessoas insistiam nisso. Aos poucos fui tendo que me afastar, senti-me desconfortável visto que muitos orgulhosos e presunçosos sempre caem em descredito. Meu medo fez com que eu evitasse sair e até me fingi de doente em alguns casos. 

Mas com o passar do tempo, eu adoeci de verdade... Ninguém soubera pois para muitos eu havia me feito de doente para não mais ter honras e ser sempre admirado. A doença veio com uma força maior em mim, e agora aquele homem que dentro de si, apesar de não ter deixado transparecer isto, achava-se realmente especial, viu-se abatido... Percebeu que nada havia de especial nele.


[Continua]

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